segunda-feira, 1 de junho de 2009

O voo da AirFrance e as tragédias corriqueiras

A cada notícia de tragédia de avião desaparecido, há sempre, ao lado do sofrimento, do medo ("podia ter sido comigo") e da solidariedade espontânea, uma oportunidade de reflexão sobre os nossos mecanismos psicológicos para enfrentar o mundo e suas agruras. De certa forma, o fato de ainda ser tão chocante a queda de um avião é um atestado da segurança do meio de transporte aéreo. Pois, afinal, tragédias cotidianas não nos faltam, mas há muito não nos chocamos com elas. São, por assim dizer, dores antigas, às quais nos acostumamos a tal ponto que nem doem mais. Sejam os milhares que morrem todo ano nas estradas do Brasil, os mortos de fome nos cafundós do planeta, os arrastados e desabrigados pelas chuvas no Nordeste do Brasil, os massacrados em conflitos bárbaros em um país qualquer da África. Tanta coisa triste e sofrida pelo que passamos alheios, como espectadores do lado de dentro do vidro de um carro fechado, inertes e concentrados em nossos cotidianos. A tragédia do Homem, enfim, vai muito além de um avião que cai na madrugada e das dores individuais que provoca.

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